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Cultura

A história da cerveja na Alsace

Mais de mil anos de cerveja, de Strasbourg a Schiltigheim e Hochfelden, na região que ainda hoje é a maior produtora de cerveja da França.

Mais de mil anos de cerveja

O registro escrito mais antigo da cerveja em Strasbourg é de 961: uma carta de doação do bispo Udo dá ao cabido da catedral duas propriedades rurais que deviam, cada uma, um “situle” de cerveja (cerca de 25 litros) para o Natal. Em 1259 aparece o primeiro cervejeiro conhecido pelo nome, “Arnoldus le cervoisier”, e em 1471 os cervejeiros entraram pela primeira vez na lista das corporações da cidade, ligados à dos tanoeiros, os fabricantes de barris.

Durante séculos, a cerveja só podia ser feita nos meses frios: entre 23 de abril e 29 de setembro, era proibido fabricar. Só em 1783 os cervejeiros foram autorizados a trabalhar o ano inteiro.

As cervejarias mais antigas

Em Hochfelden, a Meteor funciona desde 1640. É considerada o local de fabricação de cerveja mais antigo da França ainda em atividade, e a mesma família, os Haag, a dirige desde 1898.

Em 1664, Jérôme Hatt recebeu o título de mestre cervejeiro e alugou a cervejaria do Canon, na Place du Corbeau, em Strasbourg. Em 1850, seu descendente Frédéric-Guillaume Hatt levou a fábrica para o bairro de Cronenbourg, no alto da cidade, longe das cheias do rio Ill e com porões profundos para guardar a cerveja no frio (algumas fontes dão 1862 como o ano da mudança). Em 1947 a cerveja ganhou o nome do bairro, com K: Kronenbourg. Desde 1969 ela é feita em Obernai, hoje o maior local de fabricação de cerveja da França; a fábrica histórica de Cronenbourg parou de produzir em 2000.

A antiga sala de brassagem da Kronenbourg, em Strasbourg.
A antiga sala de brassagem da Kronenbourg, em Strasbourg. Imagem: Erlanic · CC BY-SA 4.0

O lúpulo, cultura histórica da Alsace

O lúpulo dá à cerveja o amargor e o aroma. Na Alsace, ele passou a ser plantado em campo aberto em 1775, e em 1805 chegaram mudas de lúpulo de Saaz, na Boêmia, que deram origem ao Strisselspalt, a variedade histórica da região.

Em 1876, os campos de lúpulo chegaram a 4.500 hectares. Hoje são cerca de 460 hectares, cultivados por 35 produtores, sobretudo na região de Haguenau, e de lá vêm 96% do lúpulo produzido na França.

Calendário de 1909 da Hopfen Bau-Verein Elsass-Lothringen, a associação dos produtores de lúpulo da Alsace-Lorraine.
Calendário de 1909 da Hopfen Bau-Verein Elsass-Lothringen, a associação dos produtores de lúpulo da Alsace-Lorraine. Imagem: Meyer, L.. Illustrateur · Domínio público

Schiltigheim, a cidade dos cervejeiros

No século XIX, a cerveja da Alsace se modernizou: a primeira máquina a vapor chegou em 1842, na cervejaria Espérance, e em 1847 Louis Schutzenberger introduziu a fermentação baixa, a das cervejas claras do tipo lager. Em 1866, a região tinha 287 cervejarias, cerca de 60 só em Strasbourg, e a cerveja alsaciana já era vendida em Paris.

Schiltigheim, vizinha de Strasbourg, ganhou o apelido de “cité des brasseurs”, a cidade dos cervejeiros. Ali funcionaram cervejarias famosas: Schutzenberger (fundada em 1740), Espérance (1746), Fischer (1821), Adelshoffen (1864) e Perle (1882).

Entre a França e a Alemanha

Depois de 1871, com a Alsace anexada à Alemanha, alguns cervejeiros alsacianos levaram a produção para a parte da Lorraine que continuou francesa. Foi também na Lorraine, na cervejaria Tourtel de Tantonville, que Louis Pasteur fez em 1875 experiências para o livro Études sur la bière (1876). Segundo historiadores, ele chegou a propor que as cervejas feitas com o seu método se chamassem “cervejas da revanche nacional”.

Em 1918, a Alsace voltou a ser francesa. Entre 1935 e 1964, as cervejarias da região dobraram a produção, mesmo passando de 23 para 17: em 1964, faziam 4,2 milhões de hectolitros, 37% da cerveja francesa.

Fechamentos e renascimento

Na segunda metade do século XX, grandes grupos compraram e fecharam muitas cervejarias. Em Schiltigheim, a Perle fechou em 1971, a Adelshoffen em 2000, a Schutzenberger em 2006 e a Fischer em 2009. A última grande cervejaria da cidade, a Espérance, da Heineken, parou de produzir em outubro de 2025; o prédio é protegido como monumento histórico.

Ao mesmo tempo, a tradição voltou de outro jeito: em 1985, os cervejeiros alsacianos retomaram a cerveja de Natal, a bière de Noël, e desde o fim dos anos 1990 surgiram dezenas de microcervejarias; a Perle voltou em 2009. Ainda hoje, a Alsace é a maior região produtora de cerveja da França.

Cerveja e choucroute

Na Alsace, a cerveja também vai para a panela: é com ela, ou com vinho branco, que se cozinha a choucroute, outro prato com séculos de história.

Ler a história do chucrute

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