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A história da quiche lorraine

Uma torta de massa de pão, ovos e creme que saiu dos fornos da Lorraine para as cozinhas do mundo inteiro.

Um nome que vem do Kuchen

A palavra quiche provavelmente vem do alemão Kuchen, “bolo” ou “torta”, que no frâncico falado na Lorraine se diz Kuche e, no plural, Kéich. A Lorraine é uma região de fronteira, onde se falavam ao mesmo tempo dialetos franceses e germânicos.

Os dicionários registram a palavra pela primeira vez na Lorraine em 1605 e, em francês, em 1805.

Na mesa dos duques da Lorraine

A menção mais antiga conhecida é de 1586: segundo o historiador Jean-Jacques Lionnois, as contas da corte do duque Charles III registram “quiches e échaudés” comprados do padeiro para a mesa do duque, em Nancy. O documento original se perdeu e só é conhecido por esse relato.

Lionnois conta que os duques mandavam servir quiches nos dias de abstinência de carne e que só os padeiros tinham o direito de fazê-las. Em 1605, elas aparecem também nas contas do hospital Saint-Julien, de Nancy.

O duque Charles III da Lorraine, que reinou de 1545 a 1608. Gravura de Thomas de Leu.
O duque Charles III da Lorraine, que reinou de 1545 a 1608. Gravura de Thomas de Leu. Imagem: Thomas de Leu · Domínio público

A receita original: massa de pão, ovos e creme

Durante séculos, a quiche foi uma massa de pão bem fina, coberta com ovos batidos com creme, a “migaine”, e pedaços de manteiga. Ia ao forno no dia em que se assava o pão. Em 1875, Jules Renauld a descreveu como uma torta “não mais grossa que uma folha de papelão” e a chamou de guloseima nacional da Lorraine.

O toucinho só entrou no século XIX: em 1892 já se fala de “quiche au lard” em Pompey, perto de Nancy, e em 1897 a novidade era trocar os pedaços de manteiga por fatias de toucinho magro ou defumado.

Os jardins do Palácio Ducal de Nancy, onde viviam os duques da Lorraine. Gravura de Jacques Callot, século XVII.
Os jardins do Palácio Ducal de Nancy, onde viviam os duques da Lorraine. Gravura de Jacques Callot, século XVII. Imagem: Jacques Callot · Domínio público

Com queijo ou sem queijo?

Na Lorraine, a resposta tradicional é: sem queijo. O queijo veio de fora: em 1873, o cozinheiro parisiense Jules Gouffé publicou uma “kiche au fromage” com parmesão, e em 1912 Auguste Escoffier fixou no seu Guide culinaire uma quiche à la lorraine com toucinho e gruyère.

A receita da Confrérie de la Quiche Lorraine continua fiel à tradição: massa podre, toucinho defumado, creme de leite, ovos e pimenta, sem queijo e sem sal.

Da Lorraine para o mundo

No começo do século XIX, a quiche ainda era quase desconhecida fora da região: em 1811, um dicionário de cozinha de Metz dizia que a palavra não estava em nenhum dicionário. Depois da Segunda Guerra Mundial, ela ficou famosa nos Estados Unidos e na Inglaterra, e a americana Julia Child a incluiu no seu livro Mastering the Art of French Cooking, de 1961.

Nos Estados Unidos, ela fez tanto sucesso que virou piada: em 1982, o livro de humor Real Men Don't Eat Quiche (“homem de verdade não come quiche”) passou 55 semanas na lista de mais vendidos do New York Times.

Uma quiche lorraine saindo do forno.
Uma quiche lorraine saindo do forno. Imagem: Claude Humbert · CC BY-SA 4.0

Uma festa e uma confraria

Em Dombasle-sur-Meurthe, perto de Nancy, a Fête de la Quiche foi tradição por mais de trinta anos, até parar em 2007. Ela voltou em 2015, e no mesmo ano foi fundada ali a Confrérie de la Quiche Lorraine, que defende a receita tradicional. A data da fundação: 2 de julho de 2015, o mesmo dia do ano em que, em 2026, seria lançada a Casa Alsace-Lorraine Brasil.

Um doce da Lorraine

A Lorraine também é terra de doces: em Commercy, perto do castelo do rei Stanislas, nasceu a fama das madeleines.

Ler a história das madeleines

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